Ildália Aguiar

HOMO SACER - DUAS FACES DA MESMA MOEDA

    Ildália Aguiar de Souza Santos

embrace, hug, solidarity

INTRODUÇÃO

     “A igualdade nos faz repousar. A contradição é que nos torna produtivo.” –  desconhecido.

    A história da Filosofia tem sido escrita como a arte de buscar e dar respostas  à problemas , e assim tem sido feito ao longo dos séculos. Segundo conceituação básica encontrada no Google, filosofia é o amor pela sabedoria, e seu início deu-se com a existência do pensamento humano, ou seja, o poder – capacidade de reflexão, do autoconhecimento, o dom maior dos seres humanos. Sendo assim a filosofia, pode ser entendida como a busca incessante do saber e conhecer; Ou seja, nada mais é que um estado da arte de um problema. 

    HOMO SACER é uma figura obscura da lei Romana, trata-se de  uma pessoa que não  é detentora de todos os direitos civis ( pela via da exclusão) tendo a vida, sua vida considerada “santa – sagrada ” mas com um viés negativo. A dualidade ai existente é que o sagrado possui tão somente aspectos negativos. Como exemplo, a morte que para os romanos sempre era seguida de rituais religiosos e funerários, nesse caso , não seria assim viabilizada. O HOMO SACER, é a vida matável sem punição, por não ser ele considerado cidadão romano.

     O Direito em Roma era exercido de diferente forma da que hoje conhecemos, o jus actionum era um conjunto de regras que os cidadãos romanos seguiam para terem seu direito efetivado, pois o direito subjetivo era tutelado pela ação (actio) – direito de resposta. Como acima explanado, a morte, possuía rituais; O cidadão considerado como homo sacer não poderia ser objeto de qualquer ato ou ritual, fosse ele anterior ou posterior a sua morte. Essa forma de pensar o direito o romano, exterioriza a conexão entre direito e ação, sendo que aos romanos o direito possuía aspecto mais processual que material.

  Sobre o tema alguns Autores como Zygmunt Bauman, Giorgio Agamben, Hannah Arendt e, recentemente, Slavoj Zizek utilizaram o termo para designar a condição de alguns povos da história recente.[1] Para essa explanação, nos focaremos na obra de Agamben, que de forma espetacular, me foi explanada e apresentada pelo Professor e Doutor Marcelo Raffin[2] . Ocorre que tanto Agamben e Arendt, se basearam em Foucault, dessa forma utilizaremos o pensamentos desses três filósofos, para chegarmos a um conclusão acerca do que realmente seria a Condição humana.

     A primeira analise necessária ao estudo da obra, é definir a percepção de um paradigma: Como os seres humanos valoram a vida e como ela é valorizada na pratica, ou ainda mais,  como  valorar a vida ?Iniciando a discussão partimos do pensamento de Aristóteles, a questão do SER, que para eu poder definir, preciso inicialmente conhecer e para isso o preciso ser;

     1. SOBRE A TERMINOLOGIA ” VIDA” 

     O Caminho da Vida (Charles Chaplin)

     O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

     Nem sempre foi fácil nomear a algo, e para os gregos a vida possuía um sentido um pouco diferente, do que hoje a palavra “vida” significa. Inicialmente, havia uma distinção semântica (ZOE) e morfológica (BÍOS). A vida como construção semântica: ZOE (natural) – Nada mais é que o ato viver, de existir, de ser,  aqui fala-se de algo biológico, natural,  do existir, que é comum a todos os seres vivos – animais, homens e Deuses.

     Para Aristóteles e Platão, a ZOE  não existia, pois a vida para eles era algo a mais, sendo um modo de vida particular com respeito a Deus, entendendo que não se tratava de algo somente natural, mas sim de algo sagrado existente na vida, segundo tais filósofos  o ato de pensar, nunca foi tão somente natural ou biológico, por essa fala entende- se que o simples fato de existir e de viver é algo mais, pois aqui falamos do SER, que compreende algo maior que o simples ato de viver, compreende a capacidade maior do ser humano, a reflexão.  

    Explanado assim, sobre o conceito de vida ZOE (vida semântica ou natural), vejamos a vida como construção morfológica: a BÍOS (política) – aqui inicia-se a fundamentação do conceito de vida qualificada (que posteriormente será melhor explanado) fala-se de uma forma ou maneira de viver, que é própria do individuo ou grupo, falamos de normas sociais, conduta.  

      Em um trecho do livro POLITICA (1278b, 23-31) , Aristóteles  explana a noção de viver segundo o bem, que devia ser comum para todos como indivíduos e comunidade, existe um pensar coletivo, que para o homem médio deveria ser uma preocupação contínua. No entanto o simples ato de viver, é excluído pela pólis, ela precisa de mais,e a necessidade de estruturação social, faz com que a BÍOS seja o foco, a partir de então, o homem vive e tem vivido como um ser social,um ser político. E é ao estudo desse ser, social e político que iremos aprofundar.

      2. DIREITO E SOCIEDADE – DUAS FACES DA MESMA MOEDA  

    Com a conceituação de uma vida qualificada – vida politica, é necessário estabelecer limites para a vontade humana, o Direito então é criado, devido  uma função politica e social de administrar e governar a vida em sociedade, seja no plano individual ou no coletivo. Estudando a fala de Foucault, vê-se que ele  apresenta traços distintivos acerca do direito e das funções que dele emanam, como o conceito de:  norma , normalização, bio poder e bio política.

     Sendo o direito associado à legalidade soberana instituída pelo Governo. Giorgio Agamben , utiliza o termo vida desnuda, para exemplificar uma vida sem proteção, e apresenta duas estruturas de poder sociais da época  :

  1. El Oikonomos (o chefe de uma empresa) e 2. El Despotés ( o cabeça de uma familia).

     Após apresentar essas estruturas de dominação, Giorgio não vislumbra nesses tipos existênciais a proteção, liberdade e autonomia de vontade, existindo tão somente uma subordinação. Algo que sequer deriva da vontade das partes, e que demonstra muito mais do que a simples subordinação, verifica-se que tal subordinação inicia socialmente a cultura da dominação social.

    Pelo exposto, as características de dominação falada por Agamben, em verdade demonstram a sociedade de hoje, de um povo, nação, que por ser conhecedor de sua individualidade, capacidade e poder, povo esse subjugou sua existência à percepção alheia de certo e errado,  e assim  aliou-se a teoria de “ proteção” instituída pelos Oikonomos e o Despotés,  que criou a cultura da subordinação.

     A partir de então, estuda-se esse poder soberano e o governo dos homens. Cria-se a noção de governamentabilidade, mas a questão central é: O que legitima esse Poder ? Afinal o que é o Poder?

    Michel Foucault, em todo o eu trabalho chega a uma conclusão que se mostra suficiente para o raciocínio aqui explanado, Foucault constata que não existe poder, informa que na verdade o que existe são relações de poder (discurso e ações do homem produzido para ele, seja no coletivo ou no individual) que por meio de seus mecanismos tem a característica de coagir, disciplinar estruturar o raciocínio humano e controlar os indivíduos.

     Para Foucault a evolução social da humanidade, foi gradativa, e à medida em que foram mudando as relações sócio políticas e econômicas  ( de controle e dominação de acordo com cada sociedade, costumes e cultura), também foram produzidas e estruturadas novas relações de poder ( que estabelecidas e verificadas as necessidades sociais , tinham seu discurso elaborado e frente à essa estrutura o poder dominante elegia sua rota de atuação política e social – falamos em uma política de gerencia) esse ciclo evolutivo possui um grau de eficiência, “ ciclos de poder, complexidade/simplicidade, que sua existência dá ao poder vida própria, sendo apresentado como algo inerente aos seres humanos, como se prescindisse de cada indivíduo ou grupo” .[3]

     O poder como o imaginamos, ou como fomos levados a pensar, não existe. Trata-se de uma prática social, me explico:

“ a ideia de que existe em um determinado lugar, ou emanando de um determinado ponto, algo que é um poder, me parece baseada em uma análise enganosa e que, em todo caso, não da conta de um número considerável de fenômenos” .[4]

   Na realidade, o poder é um feixe de relações, mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos coordenado. Portanto, o problema não é de construir uma teoria do coordenado. Portanto, o problema não é de construir uma teoria do poder (…). FOUCAULT, Michel “sobre a história da sexualidade”. In: Microfísica do poder . P. 248 [5]

    Para melhor explanar essas relações, traz-se de forma simplificada os conceitos trabalhados por Foucault:

    1.Conceito de Bíopoder: bio poder nada mais é que poder sobre a vida , um acontecimento da modernidade, com as construções de condutas instituídas pelos grupos sociais.

     2. Conceito de Bíopolitica: trata-se de colocar no centro da política o aspecto da animalidade do ser humano, ou seja o aspecto de dominação do homem. 

     Muito esquematicamente, podemos afirmar que a proposta de análise do poder, em Foucault, não poderia ser identificada como uma “teoria geral do poder”, não tendo sido em tema do poder situado como “uma realidade que possua uma natureza, uma essência que ele [Foucault] procuraria definir por suas características universais” [6] Em outras palavras, é preciso levar em conta o fato de que, durante “sua vida Michel Foucault recusou encarar o poder como uma entidade reificada. O poder então é vislumbrado por um vínculo politico duplo, que é a caracterização e externalização do exercício do poder : a individualização do ser humano,  associada a estrutura do poder moderno – poder instituído.

     Não existe, em Foucault, uma teoria do poder (nem era sua pretensão fundar uma). Em oposição à teoria, Foucault propõe que se faça uma ‘analítica do poder’. Pois, segundo ele, “se tentarmos construir uma teoria do poder, será necessário sempre descrevê-lo como algo que emerge num determinado lugar e num tempo dados, e daí deduzir e reconstruir sua gênese”. [7]  Portanto, não existe ‘o Poder’; o que existe são relações de poder, isto é, “formas díspares, heterogêneas, em constante transformação. O poder não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente” [8]

     Segundo Fernando Danner, a analítica do poder de Foucault impõe um deslocamento em relação ao Estado, na  medida em que identifica a existência de uma série de relações de poder que se colocam fora dele e que de maneira alguma devem ser analisadas em termos de soberania, de  proibição ou de imposição de uma lei. Porém, Foucault não quer negar a importância do Estado;

    O que Foucault intenta e tornar explicito que as relações denominadas como relações de poder,  ultrapassam o nível estatal( governamental, voltamos aqui na ideia de governamentabilidade , tais relações tem sua existência em todo e qualquer contexto social  e se estendem por toda a sociedade. Abaixo esse pensamento é bem explanado:   

    Digamos assim: não apenas o Estado, na modernidade, foi o centro de controle e de formação da sociabilidade; instituições como a escola, as ciências, a fábrica, o quartel, o hospício, etc., também foram fundamentais (basta citar o caso da escola  enquanto uma das instituições centrais da modernidade e de nosso tempo) no que diz  respeito à formação das massas, no que diz respeito à legitimação da racionalidade capitalista. Afirmar que o poder se restringe ao Estado, sendo sua função exclusiva, seria avaliar parcialmente a conexão que o Estado estabelece com estas instituições: que seria,  por exemplo, da racionalidade estatal sem o ensino na escola, o desenvolvimento científico, o trabalho na fábrica, a punição na prisão, etc.? ( FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – Estudos Filosóficos nº 4 /2010 – versão eletrônica – ISSN 2177-2967  http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos  DFIME – UFSJ – São João del-Rei-MG  Pág. 143 – 157)[9]

     Situar o problema em termos de Estado significa continuar situando-o em termos de soberano e soberania,  o que quer  dizer, em termos de Direito. Descrever todos esses  fenômenos do poder como dependentes do aparato estatal [10]significa compreendê-los como essencialmente repressivos: o exército como poder de morte, polícia e justiça como instâncias punitivas, etc. Eu não quero dizer que o Estado  não é importante; o que quero dizer é que as relações de poder e, conseqüentemente, sua análise se estendem  além dos limites do Estado. Em dois sentidos: em primeiro lugar, por que o Estado, com toda a onipotência do seu aparato, está longe de ser capaz de ocupar todo o campo de reais relações de poder, e principalmente porque o Estado apenas pode operar com base em outras relações de poder já existentes.        O Estado é a superestrutura em relação à toda uma série de redes de poder que investem o corpo, sexualidade, família, parentesco, conhecimento, tecnologia, etc . (FOUCAULT, Michel. L’impossible Prison : Recherches sur lê Systeme Pénitentiaire ao XIX Siècle. Paris: Du Seuil, 1980, p. 122) .

       Com a individualização do homem,  ou da capacidade de pensar do homem como um SER, falamos do nascimento da democracia moderna, pois o homem em sua condição de ser vivente, não é tido como objeto, mas como um dos sujeitos do poder político, e é justamente por sua ação e discurso que as redes de poder são estruturadas, temos uma sociedade normatizada porque esse foi o seu pensamento inicial, mas tudo pode mudar, basta que o homem-sociedade, tome ciência que na verdade o poder existe para servi-la, pois é ela quem o mantém. O fato de a sociedade – ter tentado colocar valor ao ser humano por meio de uma legislação, foi justamente o que retirou desses seres humanos o seu valor primordial, pois não se deve limitar algo intangível como o SER e o PODER.

     3.  DA CONDIÇÃO E CONTRADIÇÃO HUMANA

Em “A condição humana” Hanna Arendt traz uma explanação importante, distinguindo  de forma especifica que é a condição humana  e o que é , ou do que se trata a natureza humana: com relação a natureza humana, falamos do seu existir pura e simplesmente. No que diz respeito a Condição humana , Arendt  entende que são às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver, que é o que condiciona o social.

     A condição humana, são condições que tendem a suprir a existência do homem. As condições variam de acordo com o lugar e o momento histórico do qual o homem é parte. Nesse sentido todos os homens são condicionados, até mesmo aqueles que condicionam o comportamento de outros tornam-se condicionados pelo próprio movimento de condicionar. Sendo assim, somos condicionados por duas maneiras: 1. Pelos nossos próprios atos, aquilo que pensamos, nossos sentimentos, em suma os aspectos internos do condicionamento. 2. Pelo contexto histórico que vivemos, a cultura, os amigos, a família; são os elementos externos do condicionamento.[11]

     Inicialmente, se faz necessária para que tenhamos um ponto de partida analisar aquilo que é específico e genérico na condição humana, para isso Hannah nos faz compreender as atividades ali existentes: labor, trabalho e ação ( a vita activa) – que segundo Hannah designa três atividades humanas fundamentais, sendo elas o labor o trabalho e a ação. Pelo exposto Arendt entende que as três são atividades fundamentais, pois correspondem as condições básicas da vida ao homem na Terra. Assim vejamos:

  1.  O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujo crescimento espontâneo e metabolismo tem a ver com as necessidades vitais produzidas pelo labor no processo da vida.

  • O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana, produzindo um mundo artificial de coisas diferentes do ambiente natural.

  • A ação seria a única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação de coisas. Corresponde à condição humana da pluralidade. Esta pluralidade é a condição de toda vida política[12].

     Para Arendt todas as atividades humanas são condicionadas pela vida em sociedade, no entanto, a ação e o discurso são as únicas que não podem sequer ser imaginadas fora desse universo social humano.  Sendo assim tanto ação como discurso tornaram-se meios de persuasão e reflexão acerca das relações sociais e politicas existentes, demonstrando-se inerente a própria natureza humana as relações das esferas publicas e privadas ,sendo que o estágio final de uma, seja acompanhado do da outra.

    Logo que passou à esfera pública, a sociedade assumiu um disfarce de uma organização de proprietários que, ao invés de se arrogarem acesso à esfera pública em virtude de sua riqueza, exigiram dela proteção para o acúmulo de mais riqueza. Embora a distinção entre privado e público coincida com a oposição entre necessidade e liberdade, entre a finalidade e a realização, e, finalmente entre a vergonha e a honra, não é de forma alguma verdadeiro que somente o necessário, o fútil e o vergonhoso tenham o seu lugar adequado na esfera privada [13].

      O produto da ação humana é a “teia” de relações humanas [14] e a história.[15] Dentro desta ‘teia’ se manifestam características peculiares à ação, tais como a íntima relação com a condição humana da natalidade, que diz respeito à capacidade que cada recém chegado ao mundo dos homens tem de iniciar algo novo, ou seja, de agir; [16] e a imprevisibilidade e irreversibilidade, pois, uma vez inserida a ação na “teia” de relações humanas, não é possível prever qual será o seu fim (apesar de poder-se definir aproximadamente, seu começo) e, nem mesmo, desfazer ou reverter sua marcha.

    Assim temos visto por séculos e mais séculos, a sociedade adaptar-se a novas regras, que foram intituladas por discursos, e depois por meio da ação, que condicionou o homem a um círculo vicioso, no qual tentando delimitar e proteger direitos, acaba delimitando sua abrangência e graças à política e a arte do discurso aquilo que deveria ser a fonte de proteção, torna-se o inverso, fonte de opressão. Pois é a falta da percepção da biopolitica que gera o domínio totalitário e a condição da vida.

     Conforme explana  FERNANDO DANNER –  em O sentido da bio política em Michel Foucault , para Foucault :

     “A constituição do Estado moderno, com a gênese e o desenvolvimento das novas relações de produção capitalistas, leva à instauração da anátomo-política disciplinar e da biopolítica normativa enquanto procedimentos institucionais de modelagem do indivíduo e de gestão da coletividade; em outras palavras, de formatação do indivíduo e de administração da população”  [17].

     Tal afirmativa que nada mais é que ação e o discurso tão falado por Arendt. O que se tenciona mostrar aqui é que as sociedades modernas são caracterizadas, por Foucault, como sociedades disciplinadoras e normatizantes, “ na medida em que o desenvolvimento do indivíduo e da sociabilidade se dá a partir dos condicionamentos do Panóptico, entendido enquanto o modelo basilar a partir do qual se dá a gênese deste indivíduo e desta população moderna”  FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – Estudos Filosóficos nº 4 /2010 – versão eletrônica – ISSN 2177-2967[18].

     4. DA LEGITIMAÇÃO DO PODER

    O objetivo da genealogia é desenvolver uma concepção não-jurídica do poder, isto  é, uma concepção  alternativa àquela do poder como lei ou como direito originário que se cede para constituir uma soberania. Com isso, estabelece um deslocamento em relação às teorias jurídico-políticas tradicionais que atribuem ao Estado a centralidade do poder. O poder deve ser visto, em Foucault, como algo que funciona em rede, que atravessa todo o corpo social. E mais: segundo ele, o poder não pode ser caracterizado meramente, nem fundamentalmente, como repressivo, como algo que diz essencialmente “não”; é preciso perceber seu aspecto  positivo (aquele lado que o faz tornar-se ideológico, aceito coletivamente), isto é, o de formação de individual idades e de rituais de verdade [19]. FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistaestudosfilosoficos/art9-rev4.pdf

     O poder é ideológico, essa é a afirmação que permeia  todo o estudo aqui apresentado, como falar que uma relação social pode gerar consequências politicas e econômicas devastadoras, como dizer que uma ação ou omissão podem representar uma forma de viver e de ser, em seu pensamento Foucault deixa claro que o poder deriva das relações, que é algo interligado, e que possui duas faces, a negativa é a subordinação, a positiva em contrapartida é a ideologia por ele semeada e alimentada.

    Podemos chamar de poder a cultura, o costume, a moral, a religião, tudo aquilo que reflexiona as nossas atitudes e opiniões, aquilo que nos faz ser quem somos, e ao falar sobre politização da vida, falamos em biopolítica;

   Nos tópicos anteriores quando falado sobre a biopolitica,  a conceituamos como sendo: colocar no centro da política o aspecto da animalidade do ser humano.  Agora precisamos aclarar melhor a ideia anteriormente posta, a biopolítica é a inserção do homem primitivo nos mecanismos e cálculos do poder (construção social da identidade grupal), explanando que qualquer acontecimento politico decisivo sempre terá uma dupla face, uma ambivalência sem fim, a dos espaços, das liberdades e dos direitos.

     Para o homem a grande questão é definir quais são os espaços , as liberdades e os direitos, veja bem, é ele quem constrói o seu intelecto, que sofre uma formação inicial induzida pelo conhecimento existente em seus genitores, no entanto tal formação pode ser vivenciada para o bem e  para o mal, e as vezes a linha limítrofe é pequena demais, assim devemos analisar a tanatopolitica, que em outras palavras nada mais é que aa verificação da lei maior da física: “ para toda ação há uma reação” basta saber qual você esta disposto a suportar e carregar como escolha de vida.

    Ainda sobre  a tanatopolitica , Giorgio Agambén, um dos escritores que melhor explana sobre o assunto, afirma que esta nada mais é que a – política de produção da morte, no sentido de que todas as vezes em que decidirmos sobre a vida, estaremos o fazendo também sobre a morte, sendo uma causa e consequência da outra, uma ação e reação, um agir e um pensar que se interligam-na rede das relações geradas pelo poder.

    Posto isso, devemos analisar a funcionalidade desse poder,  no qual o objeto e o sujeito do poder político o homem, reivindica a todo tempo a liberação do simples ato de viver, de existir, de ser – da ZOE. A respeito de tal funcionalidade do poder, termo utilizado por Foucault para evidenciar as relações de poder e como essas se desenvolvem, temos que : 

      “ o poder funciona como uma maquinaria  que não está localizado em um lugar específico, mas que se dissemina por toda a estrutura social e a perpassa. Trata-se de relações de poder que constituem um sistema de poder, a partir de instituições que mantêm uma ligação social, política entre si, com base no Estado: temos, como exemplo, o aparato estatal, meios de comunicação, escolas, fábricas, e o que é legítimo e/ou ilegítimo a eles enquanto elo comum de suas relações. “O poder está em toda  parte; não porque englobe tudo, e sim porque provém de todos os lugares” [20]. Isto implica  que as próprias lutas contra o seu funcionamento não possam ser feitas de fora, do exterior, pois nada nem ninguém está livre de poder; ele está , como vimos, em toda parte e se exerce como uma multiplicidade de relações de forças. E, como afirma Foucault, onde há poder há sempre possibilidade de resistência” .[21] (FERNANDO DANNER – O sentido da biopolítica em Michel Foucault – Estudos Filosóficos nº 4 /2010 – versão eletrônica – ISSN 2177-2967)

     CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O homem é um ser dubio, foi agraciado com a capacidade de pensar, e essa capacidade tão sublime, quando bem utilizada nos faz chegar a lua, quando mal utilizada nos leva ao holocausto. O estudo do poder aqui apresentado, foi com um único objetivo, apresentar o SER,  a VIDA, e o que significa escolher, em outras palavras, e aqui nas palavras do mestre Roberto Machado:

    O que a genealogia do poder operada por Foucault se propõe é desenvolver uma concepção não-jurídica do poder. Ou seja, não se pode dar conta do poder se ele é caracterizado como algo que fundamentalmente diz respeito à lei e à repressão. A crítica de Foucault se dirige principalmente a duas direções: a primeira diz respeito às teorias dos filósofos do século XVIII, que definem o poder com o direito originário que se cede para se constituir a soberania e que tem como objeto o contrato social; a segunda, às teorias que fazem a crítica do abuso do poder, caracterizando o poder não somente por transgredir o direito, mas o próprio direito por ser um modo legal de exercício da violência e o Estado, cujo papel central é realizar a repressão, isto é, o poder como uma espécie de violência legalizada. [22]( MACHADO, Roberto. Por uma Genealogia do Poder . In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: 1979, p. XV. )

      Ainda assim,  Segundo Foucault :

     Temos que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve, ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem a constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder. Essas relações de “poder-saber” não devem ser analisadas a partir de um sujeito de conhecimento que seria ou não livre em relação ao sistema de poder; mas é preciso considerar ao contrário que o sujeito que conhece, os objetos a conhecer e as modalidades de conhecimento são outros tantos efeitos dessas implicações fundamentais do poder-saber e de suas transformações históricas. Resumindo, não é a atividade do conhecimento que produziria um saber, útil ou arredio ao poder, mas o poder-saber, os processos e as lutas que o atravessam e o constituem, que determinam as formas e os campos possíveis do conhecimento [23]. ( FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1975, p.30.

     Na obra Homo Sacer, Agamben critica a democracia e o paradigma da modernidade, no sentido de que o maior valor da vida é o seu desvalor , que é gerado pela ação e discurso do homem, que durante os séculos vem protegendo e agredindo os seus iguais; subordinando-os , aqui verificamos o inicio do uso da ideologia da crença, do poder, manifesta em várias  formas.  Na mesma obra, Agambem ainda trabalha os temas  cidadania, vida, ser, politica, bio politica, direito e sociedade, ele demonstra a projeção da vida privada na publica;

     Como bem explana Arendt, o que Agambén procura é dar forma a vida com o poder. E não que se mantenha essa forma de subordinação existente , que na verdade gerou ao homem uma condição de existencialidade onde o homem sequer existe ( visualizando o SER de Aristoteles e Platão)  tal condição é a maior contradição existente e espera-se que por meio das falas aqui apresentadas, as pessoas comecem a pensar nas estruturas de poder que hoje existem e nas relações de poder que as estruturam ou que elas estruturaram.

     REFERENCIAS

BONNAFOUS-BOUCHER, Maria. Le Libéralisme Dans La Pensée de Michel Foucault

: Un Libéralisme Sans Liberte. Paris: L’Harmattan, 2001

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1975.

______. Soberania e Disciplina. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

______. História da Sexualidade I:a Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1976.

______. Não ao Sexo Rei. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

______. Genealogia e Poder. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

______. L’impossible Prison :Recherches sur lê Systeme Pénitentiaire ao XIX Siè

cle.Paris: Du Seuil, 1980

______. Em Defesa da Sociedade . Curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo

: Martins Fontes, 1999.

MOREY, Miguel. La Cuestión del Método. In: FOUCAULT, Michel. Tecnologías del Yo y Otros Textos Afines . Barcelona: Paidós Ibérica, 1991.

______. Segurança, Território, População . Curso no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

______. Nascimento da Biopolítica. Curso no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

______. Por uma Genealogia do Poder. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder.

Rio de Janeiro: 1979.

MACHADO, Roberto. Ciência e Saber: a Trajetória da Arqueologia de Michel Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1982.


[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_sacer

[2] es profesor e investigador de la UBA en distintas unidades académicas en filosofía, teoría social y política y derechos humanos. Es doctor en filosofía por la Universidad de París 8. Es profesor e investigador invitado en universidades nacionales y extranjeras. Ha publicado, entre otros libros,Obsesiones y fantasmas de la Argentina. El antisemitismo, Evita, los desaparecidos y Malvinas en la ficción literaria (en coautoría con Adrián Melo, 2005), La experiencia del horror. Subjetividad y derechos humanos en las dictaduras y posdictaduras del Cono Sur (2006), Subjetividad, poder-saber y verdad en Michel Foucault (compilador, 2010) y “El tratamiento del pasado”. Las respuestas de la transición posdictatorial argentina a las violaciones de derechos humanos de la dictadura 1976-1983 (compilador, 2011). Sus últimas investigaciones giran en torno del tratamiento de la vida a partir de las prácticas constitutivas del paradigma socio-político moderno..

[3] FOUCAULT, Michel “sobre a história da sexualidade”. In: Microfísica do poder . P. 248

[4] ttps://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/ML/article/…/2911de WL Souza – 2012 Washington Luis Souza, professor dos cursos de Filosofia e Direito da Faculdade de Humanidades e Direito da  Universidade Metodista de São Paulo. Doutorando em Filosofia pela PUC/SP. Mestre em Filosofia pela PUC/SP.

[5] A noção do poder talvez seja uma das elaborações mais complexas do trabalho filosófico de Michel Foucault. O autor levou mais de uma década para dar os contornos de sua analítica do poder. O presente texto tem por objetivo realizar apenas uma primeira aproximação de alguns elementos que compõe essa temática, sem a pretensão de dar-lhe um formato mais acabado . fonte: https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/ML/article/…/2911de WL Souza – ‎2012 Washington Luis Souza, professor dos cursos de Filosofia e Direito da Faculdade de Humanidades e Direito da  Universidade Metodista de São Paulo. Doutorando em Filosofia pela PUC/SP. Mestre em Filosofia pela PUC/SP.

[6]  https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/ML/article/…/2911de WL Souza – 2012 Washington Luis Souza, professor dos cursos de Filosofia e Direito da Faculdade de Humanidades e Direito da  Universidade Metodista de São Paulo. Doutorando em Filosofia pela PUC/SP. Mestre em Filosofia pela PUC/SP.

[7] FOUCAULT, Michel. Confession of the Flesh: Recherches sur lê Systeme Pénitentiaire ao XIX Siècle. Paris: Éd. Du Seuil, 1980, p. 199.

[8] MACHADO, Roberto. Por uma Genealogia do Poder. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. X.

[9] FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – Estudos Filosóficos nº 4 /2010 – versão eletrônica – ISSN 2177-2967  http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos  DFIME – UFSJ – São João del-Rei-MG  Pág. 143 – 157

[10] FOUCAULT, Michel. L’impossible Prison : Recherches sur lê Systeme Pénitentiaire ao XIX Siècle. Paris: Du Seuil, 1980, p. 122

[11]  http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm#ixzz4Tfkllzwf. Acessado em 23.10.2016.

[12] ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. p. 15.

[13] ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. p. 30.

[14] “Diferentes dos bens de consumo e dos objetos de uso são, finalmente, os ‘produtos’ da ação e do discurso que, juntos, constituem a textura das relações e dos negócios humanos. Por si mesmos, são não apenas destituídos da tangibilidade das outras coisas, mas ainda menos duráveis e mais fúteis que o que produzimos para o consumo. Sua realidade depende inteiramente da pluralidade humana, da presença constante de outros que possam ver e ouvir e, portanto, cuja existência possamos atestar” (Ibid., p. 106). “Mas, a despeito de toda a sua intangibilidade, esta mediação [constituída de atos e palavras] é tão real quanto o mundo das coisas que visivelmente temos em comum. Damos a esta realidade o nome de ‘teia’ de relações humanas, indicando pela metáfora sua qualidade, de certo modo intangível” (Ibid., p. 195). ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

[15] “A ação, na medida em que se empenha em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a história”. Ibid., p. 16 e 17.

[16] Ibid., p. 17.

[17] FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – Estudos Filosóficos nº 4 /2010 – versão eletrônica – ISSN 2177-2967  http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos  DFIME – UFSJ – São João del-Rei-MG  Pág. 143 – 157.

[18] Ibid., p. 144.

[19] FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistaestudosfilosoficos/art9-rev4.pdf – Doutorando em Filosofia pela PUCRS; professor assistente do Departamento de Filosofia da Fundação -Universidade Federal de Rondônia – UNIR.

[20] FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1976,p. 89.

[21] FERNANDO DANNER – O sentido da bio política em Michel Foucault – http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistaestudosfilosoficos/art9-rev4.pdf – Doutorando em Filosofia pela PUCRS; professor assistente do Departamento de Filosofia da Fundação -Universidade Federal de Rondônia – UNIR.

[22]Cf.: MACHADO, Roberto. Por uma Genealogia do Poder . In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: 1979, p. XV.

[23] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1975, p.30.

 

 

 

Como bem explana Arendt, o que Agambén procura é dar forma a vida com o poder. E não que se mantenha essa forma de subordinação existente , que na verdade gerou ao homem uma condição de existencialidade onde o homem sequer existe ( visualizando o SER de Aristoteles e Platão)  tal condição é a maior contradição existente e espera-se que por meio das falas aqui apresentadas, as pessoas comecem a pensar nas estruturas de poder que hoje existem e nas relações de poder que as estruturam ou que elas estruturaram.