Ildália Aguiar

BORGES, O TEMPO E “O MILAGRE SECRETO”

    Ildália Aguiar de Souza Santos - Joyce Glenda Barros Amorim

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     O escritor argentino Jorge Luis Borges renovou a linguagem literária mundial com livros como Ficciones, que apresenta contos com temas variados, nos quais figuram filosofia, metafísica, o fantástico, o múltiplo e o enigmático. Dentre esses contos, escolhemos “El milagro secreto” para realizar nossa análise, tendo por base os conceitos de tempo, sucessão temporal, eternidade e memória discutidos pelo próprio Borges, no ensaio “O tempo”, presente no livro Jorge Luis Borges: cinco visões pessoais. Nossa intenção é demonstrar como essas concepções do autor se refletem em seu fazer literário, mais precisamente na construção do conto citado.

     “El milagro secreto” começa narrando um sonho que a personagem Jaromir Hladík teve, na noite de 14 de março de 1939, com um extenso jogo de xadrez. Porém, não é um jogo comum: não o jogam dois indivíduos, mas duas ilustres famílias. O jogo começara há séculos, entretanto, não se sabia dizer qual era o prêmio disputado. O narrador continua:

     Jaromir (no sonho) era o primogênito de umas das famílias hostis; nos relógios, ressoava a hora da impostergável jogada; o sonhador corria pelas areias de um deserto chuvoso e não conseguia recordar as figuras ou as leis do xadrez. Nesta altura, despertou. Cessaram os estrondos da chuva e dos terríveis relógios. Um ruído compassado e unânime, cortado por algumas vozes de comando, subia das Zeltnergasse. Era o amanhecer; as blindadas vanguardas do Terceiro Reich entravam em Praga (BORGES 1972: 155-156).

     Em seguida, descobrimos que a chegada dessas tropas nazistas seria decisiva para o destino de Jaromir: ele foi preso, no dia 19 de março, por ser um escritor judeu e por ter feito uma interpretação das fontes judaicas de Jakob Boehme. Isso também bastou para que Jaromir fosse condenado à morte pela Gestapo:

     Fixou-se o dia 29 de março, às nove da manhã. Essa demora (cuja importância considerará depois o leitor) devia-se ao desejo administrativo de agir impessoal e pausadamente, como os vegetais e os planetas (BORGES 1972: 156).

    Percebemos, então, que o sonho de Jaromir era uma espécie de premonição. Deduzimos que a partida de xadrez era disputada, respectivamente, por nazistas e judeus: Jaromir era o primogênito da “família” dos judeus e “a hora da impostergável jogada”, por dedução, seria a hora de sua morte, que é o momento em que ele desperta do sonho. Percebemos, também, que o elemento “tempo” está presente desde o início do conto, compondo a narração: “Nos relógios ressoava a hora da impostergável jogada. […] nesta altura, despertou. Cessaram os estrondos da chuva e dos terríveis relógios. […] No décimo nono dia, as autoridades receberam uma denúncia; no mesmo décimo nono dia, ao entardecer, Jaromir Hladík foi detido […] Fixou-se o dia 29 de março, às nove da manhã” (BORGES 1972: 156; grifos nossos).

     O primeiro sentimento de Jaromir diante da “sentença” foi o de simples terror. Depois, o prisioneiro passou a imaginar as possíveis circunstâncias de sua morte: “procurava exaurir absurdamente todas as variantes” (BORGES 1972: 157), num trabalho incansável. O narrador descreve essa angústia no trecho a seguir:

     Mísero na noite, procurava afirmar-se de algum modo na substância fugitiva do tempo. Sabia que este se precipitava para a madrugada do dia 29; raciocinava em voz alta: Agora estou na noite do dia 22; enquanto dure esta noite (e seis noites mais) sou invulnerável, imortal. Pensava que as noites de sonho eram piscinas fundas e escuras nas quais podia submergir (BORGES 1972: 157; grifos em negrito nossos).

     Notamos, no excerto citado, que as noites de sonho eram a única fuga, o único escape para a imaginação de Jaromir, pois o sonho é a uma forma de “paralisação” momentânea da nossa imaginação; nele, não percebemos a passagem real do tempo. Sobre isso, Borges afirma: o tempo é um problema essencial e, por isso, todos podemos prescindir do espaço, mas não do tempo. Borges faz um paralelo do tempo com a nossa consciência, pois esta passa de um estado a outro, o que constitui uma sucessão. Assim, para Borges “o tempo é a sucessão” e o mundo começou a ser com o tempo. Desde então, tudo é sucessivo.

     Como foi dito anteriormente, Jaromir era escritor. No dia 28 de março, ao escurecer, sua imaginação – que estava focada na “premeditação” de sua própria morte – foi distraída pela lembrança de seu livro Os Inimigos (inconcluso). Jaromir também havia escrito Vindicação da Eternidade*, talvez a única de suas obras que julgava menos deficiente. Essa obra era dividida em dois volumes:

[…] o primeiro historia as diversas eternidades que os homens idearam, do imóvel Ser de Parmênides até o passado modificável de Hinton; o segundo nega (com Francis Bradley) que todos os acontecimentos do universo integram uma série temporal (BORGES 1972: 158).

     Em seu ensaio “O tempo”, Borges explica que, para Bradley, “o tempo não é um só, que flui através de todo o universo” (BORGES 1987: 46), mas “cada um de nós vive uma série de fatos, e essa série pode ser paralela ou não a outras” (ibidem: 46), ou seja, o tempo não é uno: é composto por diversas séries distintas. E Borges chega até a questionar: “Por que supor a ideia de um só tempo, um tempo absoluto, como imaginava Newton?”. O autor argentino compreende que o tempo equivale à percepção que temos da realidade; sendo assim, o tempo terá sempre uma sucessão pessoal, pois sua passagem se estabelece a partir da pessoa, de seus sentimentos.

     Borges também explica que “o tempo é a dádiva da eternidade” (BORGES 1987: 43), uma vez que a eternidade nos permite todas as experiências de um modo sucessivo. Há os dias e as noites, as horas, os minutos, a memória, as sensações presentes e, depois, o futuro, um futuro cuja forma ignoramos, mas que pressentimos ou tememos, que é a realidade de Jaromir Hladík, cujo futuro era a morte, e uma morte com prazo.

     Voltando a falar do personagem principal do conto, Jaromir Hladík, é importante notar que, embora suas obras não tivessem grande repercussão, a Hladík – como a todo e qualquer escritor – não agradava a ideia de partir e não concluir seu drama Os Inimigos. Jaromir tem uma conversa com Deus e lhe pede um prazo para que consiga concluir seu trabalho, tendo em vista que em breve morreria:

     Se de algum modo existo, se não sou uma de tuas repetições e erratas, existo como autor de Os Inimigos. Para levar a termo esse drama, que pode justificar-me e justificar-te, requeiro mais um ano. Outorga-me esses dias. Tu, de quem são os séculos e o tempo (BORGES 1972: 160; grifos em negrito nossos).

     Como podemos perceber, se apresenta aqui o problema do tempo: Jaromir deseja escrever o segundo e terceiro atos de seu drama em versos, finalizá-lo – o que seria a sua redenção –, no entanto, sua execução seria no dia seguinte. Desse modo, restou-lhe recorrer a Deus, afinal, não temos controle sobre o tempo, somos impotentes diante dele. Conforme Borges, o problema do tempo “é o problema do fugidio: o tempo passa” (BORGES 1987: 42), no entanto, a memória permanece: “[…] a memória é individual. Somos feitos, em boa parte, de nossa memória” (ibidem: 42). E é o que observamos em Hladík, a quem só resta a memória, para imaginar, relembrar, escrever e reescrever sua obra.

     Durante o sono, em mais uma das fugas de Jaromir (o sonho), Deus lhe dá uma resposta:

     Era a última noite, a mais atroz, mas dez minutos depois o sonho o alagou como uma água escura. Pela madrugada, sonhou que se ocultara numa das naves da biblioteca do Clementinum. Um bibliotecário de óculos pretos perguntou-lhe: Que busca? Hladík respondeu-lhe: Busco a Deus. O bibliotecário disse-lhe: Deus está numa das letras de uma das paginas de um dos quatrocentos mil tomos do Clementinum. Meus pais e os pais de meus pais procuraram essa letra; eu me tornei cego buscando-a. Despojou-se dos óculos e Hladík viu os olhos que estavam mortos. Um leitor entrou para devolver um atlas. Este atlas é inútil,disse,e entregou-o a Hladík. Este o abriu ao acaso. Viu um mapa da Índia, vertiginoso. Bruscamente seguro, tocou uma das mínimas letras. Uma voz ubíqua lhe falou: O tempo de teu trabalho foi outorgado. Aqui Hladík despertou (BORGES 1972: 160-161; grifos do autor).

     Depois disso, Hladík, caminhou para a impostergável jogada. O jogo estava prestes a terminar. Esperou ele seu futuro temido, a descarga do chumbo germânico, que ocorreria no dia 29 de março, às nove horas da manhã. Nesse instante, Jaromir notou que algo acontecera. O universo físico parou:

     As armas convergiram sobre Hladik, mas os homens que iam matá-lo estavam imóveis. […] Dormiu ao cabo de um prazo indeterminado. Ao despertar, o mundo continuava imóvel e surdo. Em sua face a gota de água perdurava […]. Outro “dia” passou, antes que Hladik compreendesse. Um ano inteiro solicitara a Deus para terminar seu trabalho: um ano lhe concedia sua onipotência. Deus laborava para ele um milagre secreto (BORGES 1972: 162).

     Seu pedido foi atendido. Com destreza jamais imaginada, Hladík finalizou e revisou seu drama, e o fez de maneira precisa. Um trabalho árduo. E assim, de um estado de perplexidade, Jaromir passou à súbita gratidão, afinal, concluída estava sua obra Os Inimigos. Em sua mente o escritor venceu e a redenção lhe foi dada. Sua memória fora a folha na qual transcrevera todo o seu drama. Jaromir obteve uma graça, e essa lhe foi concedida em um curto espaço de tempo. Seu milagre aconteceu: dentro de dois minutos passou-se o tempo de um ano: “Deu término a seu drama: não lhe faltava já resolver senão um só epíteto. Encontrou-o; a gota de água resvalou em sua face. Iniciou um grito enlouquecido, moveu o rosto, a quádrupla descarga o derrubou” (BORGES 1972: 163). Executado fora Jaromir, às nove horas e dois minutos da manhã.

     Assim, nota-se que o percurso lógico que Borges constrói em seu ensaio “O Tempo” se materializa literariamente no conto “O milagre secreto”. No ensaio, ele questiona: “Por que não aceitar a ideia de dois instantes de tempo”, e explica: “Parece muito difícil aceitar o fato de que entre dois instantes existe um número infinito ou transfinito de instantes” (BORGES 1987: 45-46), que é o que ocorre no momento da morte de Hladík. Borges também defende que “o momento presente é o momento que tem um pouco de passado e um pouco de futuro”, isto é, é um momento incerto, e é essa inconstância do tempo, esse “milagre” (que talvez seja a nossa percepção dele), que Borges explora ao narrar o “milagre temporal” concedido a Jaromir Hladík: o milagre de um ano passado em dois minutos.

     Ao fim de seu ensaio, Borges afirma: “todo o mundo, todo o universo das criaturas quer voltar a esse manancial eterno [do princípio], que é intemporal, não anterior ao tempo, nem posterior, mas fora do tempo” (BORGES 1987: 48); isto é: temos o desejo de “fugir” do tempo, o que reforça a ideia de que o tempo é a nossa grande questão/problema. Ora, se nos perguntam “o que é o tempo?”, podemos apenas responder: sabemos que ele existe, ele é um fato; mas a eternidade e a infinitude não podem ser mensuradas.

REFERÊNCIAS

     BORGES, Jorge Luis. Jorge Luis Borges: cinco visões pessoais. Trad. Maria Rosinda Ramos da Silva. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1987. (Coleção Itinerários; 19).

     BORGES, Jorge Luis. Ficções. Trad. Carlos Nejar. Porto Alegre: Abril, 1972. (Os imortais da literatura universal; 50).

 

 

 

 

     Borges também explica que “o tempo é a dádiva da eternidade” (BORGES 1987: 43), uma vez que a eternidade nos permite todas as experiências de um modo sucessivo. Há os dias e as noites, as horas, os minutos, a memória, as sensações presentes e, depois, o futuro, um futuro cuja forma ignoramos, mas que pressentimos ou tememos, que é a realidade de Jaromir Hladík, cujo futuro era a morte, e uma morte com prazo.